segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

PORTO SEGURO

Pensei que os dias vividos sob o sol e sobre o mar me dava experiência de marujo necessária para enfrentar os mares bravios e as águas tempestuosas. Resolvi então deixar o porto seguro e navegar rumo as índias dos meus desejos mais íntimos. A bússola de minha intelectualidade era o único instrumento náutico que me guiava pelas enseadas da vida. Eu tinha que dobrar o cabo das tormentas, mas minhas velas existenciais não puderam suportar as procelas da vergonha e do fracasso. Minha nau encalhou avariada numa praia deserta.

Agora algemado a areia, numa prisão sem fim, vivo momentos de nostalgia e melancolia. O tempo passa... Estou perdendo o precioso milagre de navegar. Como os antigos navegantes penso “navegar é preciso, viver não é preciso”. Como é tenebrosa esta inércia, como anseio ouvir novamente o barulho das ondas sobre meu bojo! Qual a serventia da nau se não for navegar?

Somos frágeis quando estamos presos e não podemos mais alçar grandes sonhos. Sentimos tão pequenos quando não podemos ser alcançados pela solidariedade dos amigos, pois nossas escolhas nos levaram a uma praia deserta numa ilha longínqua. Como é duro sentir as lamentações da alma gritando angustiada e solitária por ajuda!

Talvez quando eu voltar ao porto seguro me sinta como um pai que abandonou a família, e depois de anos volta quando os filhos já estão crescidos. Talvez eu morra ressecado pelo o sol e pelo o vento, sentindo a dura terra sob o meu bojo e jamais volte, e minha memória seja olvidada e o que ensinei seja esquecido.

Nas noites escuras, no topo do mastro, ainda posso ver a remota luz do farol que guia os navegantes. Isso me traz esperança, não posso perder de vista a luz deste farol e nem deixar de ser guiado por Ele. Então surge a força para renascer dos escombros da minha história.

Vou preparar a quimanga, construir nova fateixa e levar poita suficiente para ancorar em mares profundos. Porque em breve Iashua Hamashia poderá mandar uma maré alta que erguerá o meu barco, e então poderei navegar novamente. Poderei abrir minhas velas para infinitas viagens, deixando que o vento do Espírito sopre sobre ela. E quando a minha fragilidade for exposta, quando a culpa do fracasso cair sobre mim, quando meus defeitos forem jogados em rosto e minha alma vagar solitária, eu possa voltar ao porto seguro para reestruturação e restauração.

Marcos Avelino

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

REVERÊNCIA AO DESTINO

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer “oi” ou “como vai?”
Difícil é dizer “adeus”. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas…
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar. E aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência. Acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

IF...

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;


If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;


If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";


If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!



Rudyard Kipling

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

UNITAS FRATRUM

O embrião da Sociedade Missionária Unitas Fratrum. Leia este artigo tirado da revista Ultimato.

A tua palavra é a verdade: a saga dos Irmãos Morávios

Os irmãos morávios e a igreja valdense são os únicos grupos protestantes atuais cujas raízes mais remotas são anteriores à Reforma do século 16. Os valdenses tiveram suas origens em um movimento reformista iniciado por volta de 1175 por Valdès, um comerciante de Lião, no sul da França. Expulsos da Igreja Católica em 1184, seus simpatizantes enfrentaram heroicamente séculos de perseguição, abraçando eventualmente a Reforma Protestante. Refugiaram-se principalmente nos vales alpinos do norte da Itália, na região conhecida como Piemonte, a sudoeste de Turim. Os irmãos morávios, por sua vez, têm uma história ainda mais complexa, mas não menos inspiradora, cujos primórdios remontam à Inglaterra do final do século 14.

De João Wyclif a João Hus

John Wyclif (c.1325-1384) nasceu em Yorkshire, estudou na Universidade de Oxford e abraçou o sacerdócio. Na década de 1360, adquiriu grande reputação em Oxford e outros centros intelectuais como brilhante professor e escritor de filosofia. Posteriormente, tornou-se conselheiro teológico do rei e prestou serviços à coroa inglesa. Defendeu a teoria de que o poder civil tinha o direito de se apoderar das propriedades do clero corrupto. Suas opiniões foram condenadas pelo papa em 1377, mas ele teve o apoio de pessoas influentes e do povo. Após o Grande Cisma (1378), com a existência simultânea de dois papas rivais, suas idéias tornaram-se mais radicais e ele acabou por rejeitar toda a estrutura tradicional da igreja medieval. Em uma série de tratados teológicos, afirmou a autoridade suprema das Escrituras, definiu a igreja verdadeira como o conjunto dos eleitos, e questionou o papado e a transubstanciação. Além disso, incentivou a primeira tradução da Bíblia completa para a língua inglesa (1384).

Eventualmente, Wyclif perdeu o apoio da nobreza e de muitos simpatizantes, mas viveu em paz os seus últimos anos, vindo a falecer em sua paróquia, Lutterworth, no dia 28 de dezembro de 1384. Seus seguidores, conhecidos como lolardos, foram duramente reprimidos nas décadas seguintes. Ensinavam que a missão principal de um sacerdote era pregar as Escrituras e que a Bíblia dever ser acessível a todos nas várias línguas vulgares. Essas idéias contribuiriam para a ampla aceitação da Reforma Protestante pelos ingleses no século 16.

No século 14, a Boêmia (Tchecoslováquia) fazia parte do Sacro Império Germânico. Politicamente, o país estava dividido por conflitos entre os tchecos e a comunidade imigrante alemã, mais poderosa. Em 1382, a Boêmia, até então pouco ligada à Inglaterra, aproximou-se deste país por meio do casamento de uma princesa tcheca com o rei Ricardo II. Jovens tchecos passaram a estudar em Oxford e conheceram as doutrinas de Wyclif, que logo levaram para a sua terra, especialmente para a Universidade de Praga (fundada em 1348). Entre os professores que abraçaram muitas idéias de Wyclif estava o ardoroso Jan Hus (c. 1373-1415).

Hus nasceu na vila de Husinec, estudou na Universidade de Praga e foi ordenado sacerdote em 1400. Pouco antes da ordenação teve uma experiência de conversão pelo estudo da Bíblia e se tornou um zeloso defensor de reformas eclesiásticas. Além de lecionar na universidade, em 1402 foi nomeado pregador da Capela de Belém, o centro do movimento reformista tcheco, alcançando enorme popularidade por suas pregações. Como João Wyclif, ele ensinava que a igreja verdadeira consiste somente dos eleitos, dos quais o cabeça é Cristo, e não o papa. Embora defendesse a autoridade tradicional do clero, Hus afirmava que somente Deus pode perdoar pecados. Acreditava que nem o papa nem os cardeais podiam estabelecer como autêntica uma doutrina que fosse contrária à Escritura, e que nenhum cristão devia obedecer às suas ordens quando estas se revelassem abertamente erradas. Dizia que a igreja devia ter uma vida de simplicidade e pobreza, à semelhança de Cristo. A única lei da igreja era a Bíblia, especialmente o Novo Testamento, daí a grande importância da pregação. Condenou a corrupção do clero, a adoração de imagens, os falsos milagres, as peregrinações supersticiosas e a venda das indulgências, mas manteve a transubstanciação.

A partir de 1410, as autoridades eclesiásticas e seculares começaram a tomar medidas drásticas contra os wyclifitas. Apesar de ser altamente estimado pelo povo, Hus foi excomungado e seguiu para o exílio no sul da Boêmia, onde escreveu sua principal obra, De Ecclesia (Sobre a Igreja). Munido de um salvo-conduto fornecido pelo imperador alemão Sigismundo, compareceu ao célebre Concílio de Constança (1414-1418), no sul da Alemanha, a fim de justificar as suas posições. Em 4 de maio de 1415, o concílio condenou formalmente João Wyclif como herege e ordenou que o seu corpo fosse retirado da terra consagrada (essa ordem só seria cumprida em 1428). Hus, considerado por todos um wyclifita, recusou-se firmemente a abjurar as suas idéias. No dia 6 de julho de 1415 foi sentenciado e queimado na fogueira, enfrentando a morte com grande coragem e dignidade.

A Unitas Fratrum e os Irmãos Morávios

A notícia da morte de Hus produziu grande revolta na Boêmia, que seria agravada pela condenação do seu amigo e colega Jerônimo de Praga, também levado à fogueira pelo Concílio de Constança, em 30 de maio de 1416. Outra fonte de protestos foi a proibição, pelo mesmo concílio, da ministração do cálice da Ceia aos leigos, prática que se tornara o símbolo do movimento hussita. Surgiram duas facções no movimento: um partido moderado e aristocrático, sediado em Praga, conhecido como utraquistas (referência à comunhão sub utraque, isto é, “em ambas” as espécies) ou calixtinos (do latim calix = cálice), e um partido radical, popular, os taboritas (de Tábor, a sua fortaleza). Os primeiros rejeitaram somente as práticas que consideravam proibidas pela “lei de Deus”, a Bíblia, ao passo que os taboritas repudiavam todas as práticas não sancionadas expressamente pelas Escrituras.

Após um período de conflitos, as duas facções se uniram em 1420, adotando uma agenda religiosa comum, “Os Quatro Artigos de Praga”, que exigiam a livre pregação da Palavra de Deus, o cálice para os leigos, a pobreza apostólica e uma vida de austeridade para clérigos e leigos. Durante alguns anos, eles se envolveram em várias guerras vitoriosas contra os seus adversários. Uma tentativa de acordo com a igreja católica produziu novas lutas internas, sendo os taboritas derrotados pelos utraquistas em 1434, na batalha de Lipany. Fracassado o acordo com o catolicismo, os utraquistas tornaram-se um grupo religioso autônomo, cuja plena paridade com os católicos foi declarada pelo Parlamento da Boêmia em 1485. Alguns anos antes, em 1457, havia surgido a Unitas Fratrum (Unidade dos Irmãos Boêmios), reunindo elementos taboritas, utraquistas e valdenses. Essa igreja absorveu o que havia de mais vital no movimento hussita e tornou-se a precursora dos irmãos morávios.

Com o advento da Reforma, os “irmãos unidos” abraçaram o protestantismo. Nessa época, eles contavam com cerca de 400 igrejas locais e 150 a 200 mil membros na Boêmia e na vizinha Morávia. Expulsos de sua pátria durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), espalharam-se por diversas regiões da Europa e perderam muitos adeptos. Um ano especialmente amargo foi 1621, quando quinze irmãos foram decapitados no “dia de sangue”, muitos crentes foram mandados para as minas ou masmorras, igrejas foram fechadas, escolas destruídas, Bíblias, hinários e catecismos foram queimados. Os poucos remanescentes continuaram a realizar as suas funções religiosas em segredo e a orar pelo renascimento da sua igreja. Um importante líder desse período aflitivo foi o notável educador Jan Amos Comenius (1592-1672), eleito bispo dos irmãos morávios em 1632.

O conde Zinzendorf e Herrnhut

Em 1722, sobreviventes dos irmãos unidos que falavam alemão, residentes no norte da Morávia, começaram a buscar refúgio na vizinha Saxônia, sob a liderança de um carpinteiro, Christian David. O jovem conde Nikolaus Ludwig von Zinzendorf (1700-1760) permitiu que eles fundassem uma vila em sua propriedade de Berthelsdorf, cerca de 110 quilômetros a leste de Dresden. Zinzendorf era fruto do pietismo, um influente movimento que havia surgido recentemente no luteranismo alemão. Esse movimento teve como líderes iniciais Phillip Jacob Spener (1635-1705) e August Hermann Francke (1663-1727), sendo seu principal centro de atividade a cidade de Halle, também na Saxônia, a terra de Martinho Lutero. Os pietistas davam grande ênfase à devoção, à experiência e aos sentimentos, em contraste com a ortodoxia, credos e rituais. Também valorizavam a conversão pessoal, o sacerdócio universal dos crentes, o estudo das Escrituras, os pequenos grupos para comunhão e auxílio mútuo, e um cristianismo prático voltado para educação, missões e beneficência.

Nascido em uma família aristocrática, Zinzendorf recebeu uma educação pietista em Halle dos 10 aos 17 anos. Desde a infância revelou uma intensa devoção pessoal a Cristo e mesmo depois de ingressar no serviço público, em 1721, continuou a ter como interesse predominante o cultivo da “religião do coração”. Foi então que entrou em contato com os morávios. A vila que estes fundaram em sua propriedade recebeu o nome de Herrnhut (“a vigília do Senhor”). A comunidade cresceu e logo se uniram a ela muitos pietistas alemães e outros entusiastas religiosos. Inicialmente Zinzendorf lhes deu pouca atenção, mas em 1727 começou a assumir a liderança espiritual do grupo. Superadas algumas divisões iniciais, no dia 13 de agosto de 1727 foi realizado um marcante culto de comunhão que veio a ser considerado o renascimento da antiga Unitas Fratrum, a Igreja Morávia renovada. A partir de então, Herrnhut tornou-se uma disciplinada e fervorosa comunidade cristã, um corpo de soldados de Cristo ansioso em promover a sua causa no país e no exterior.

Embora Zinzendorf desejasse que os morávios permanecessem como membros da igreja estatal da Saxônia (luterana), gradualmente eles formaram uma igreja separada. Em 1745 a Igreja Morávia já estava plenamente organizada com seus bispos, presbíteros e diáconos, embora seu governo fosse, e ainda seja, mais presbiteriano que episcopal. A essa altura o moravianismo estava criando uma liturgia de grande beleza e uma rica tradição hinológica. A Igreja Morávia restaurada permaneceu pequena, mas sua influência se fez sentir em toda a Europa. Seus primeiros bispos foram David Nitschmann (1735) e o próprio Zinzendorf (1737), que, após uma vida de intensa atividade missionária e pastoral na Europa e na América do Norte, faleceu em Herrnhut em 1760. Certa vez havia declarado, referindo-se a Cristo: “Eu tenho uma paixão; é ele e ele somente”.

Até aos confins da terra

Com o seu zelo por Cristo, os morávios escreveram uma das páginas mais nobres das missões cristãs em todos os tempos. Nenhum grupo protestante teve maior consciência do dever missionário e nenhum demonstrou tamanha consagração a esse serviço em proporção ao número de seus membros. Numa viagem a Copenhague para assistir à coroação do rei dinamarquês Cristiano VI, Zinzendorf conheceu alguns nativos das Índias Ocidentais e da Groenlândia. Regressou a Herrnhut cheio de fervor missionário e, em conseqüência disso, Leonhard Dober e David Nitschmann iniciaram uma missão aos escravos africanos em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, em 1732, e Christian David e outros seguiram para a Groenlândia no ano seguinte.

Em 1734, um grupo liderado por August Gottlieb Spangenberg (1704-1792) começou a trabalhar na Geórgia. No Natal de 1741, o próprio Zinzendorf visitou a América e deu o nome de Bethlehem (Belém) à colônia que os morávios da Geórgia estavam criando na Pensilvânia. Essa cidade se tornaria a sede americana do movimento. O mais famoso missionário morávio aos índios norte-americanos foi David Zeisberger (1721-1808), que trabalhou entre os creeks da Geórgia a partir de 1740 e entre os iroqueses desde 1743 até a sua morte.

Herrnhut tornou-se um centro de atividade missionária, iniciando missões no Suriname, Costa do Ouro, África do Sul, Argélia, Guiana, Jamaica, Antigua e outros locais. Em 1748, foi iniciada uma missão aos judeus em Amsterdã. Até 1760, o ano da morte de Zinzendorf, os morávios haviam enviado 226 missionários a dez países e cerca de 3 mil conversos haviam sido batizados. Outros locais alcançados posteriormente foram Egito, Labrador, Espanha, Ceilão, Romênia e Constantinopla. Em 1832, havia 42 estações missionárias morávias ao redor do mundo. Os nomes dos primeiros campos missionários mostram uma característica do trabalho morávio: eram em geral locais difíceis e inóspitos, exigindo uma paciência e dedicação toda especial, traço que até hoje caracteriza o trabalho missionário desse grupo.

Conclusão

Com seu heroísmo, apego às Escrituras e consagração a Deus, os irmãos morávios, embora pouco numerosos, exerceram uma forte influência espiritual sobre outros grupos e movimentos protestantes, especialmente na Inglaterra. A convivência com alguns morávios causou profundo impacto em João Wesley e contribuiu para a sua conversão e o surgimento do metodismo. William Carey, o pioneiro das missões batistas, os admirava grandemente e apelou para o seu exemplo de obediência. Eles também inspiraram a criação de duas das primeiras agências protestantes de missões — a Sociedade Missionária de Londres (1795) e a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804). Assim completou-se um ciclo extraordinário: a obra do pré-reformador inglês João Wyclif contribuiu para o surgimento dos morávios e, séculos depois, estes foram uma bênção para a Inglaterra e, por meio dela, para muitos outros povos.

Autor: Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Fonte de Publicação: Revista Ultimato de janeiro de 2009 (www.ultimato.com.br)

Obs. O texto está na integra como foi publicado.

sábado, 5 de novembro de 2011

Convivendo com pensamentos diferentes IV

Na época do novo testamento, existiam alguns grupos que acreditavam que podiam mudar o destino de Israel através da política, das instituições e outros acreditavam que isso somente seria possível com uma revolução armada. Os herodianos, os saduceus e os zelotes, eram grupos que pensavam diferentemente sobre este assunto. O primeiro na política, o segundo nas instituições e o terceiro numa revolução. Como já comentei em postagem anterior sobre os saduceus, nesta postagem vou me ater nos zelotes e nos herodianos.

Os zelotes eram um grupo religioso e revolucionário que acreditava que a submissão a roma fosse traição a Deus. Organizaram-se militarmente no século I a.C. opondo-se a ocupação romana de Israel. Procuravam incitar o povo Judeu a rebelar-se contra o império romano, e expulsar os romanos pela a força armada. Atacavam a noite e eram o terror dos soldados romanos. Também foram conhecidos como cananitas.

Seus simpatizantes eram oriundos da classe baixa de Israel, dos que não tinham status nem pedigree religioso para tirar proveito, como os saduceus e os fariseus. Não tinham nada a perder. Atuaram primeiro na Galiléia, mas durante a Guerra Judaica –romana (66-70), tiveram um papel ativo na Judéia e provocaram a rebelião que culminou com a destruição de Jerusalém em 70 d.C.

Respeitavam o Templo e a Lei. Opunham-se ao helenismo. Professavam um messianismo radical e só acreditavam em um governo teocrático, ocupado por judeus. Viam na luta armada o único caminho para enfrentar aos inimigos e acelerar a instauração do Reino de Deus.

Alguns autores apontam que um de discípulos de Jesus é chamado de Simão, o Zelote em Lucas 6:15 e Atos 1:13, poderia ter pertencido a este grupo antes de se unir a Jesus.

Os herodianos eram um grupo político religioso que amparou a política e o governo da família dos Herodianos, principalmente durante o reinado de Herodes Antipas, que governou a Galiléia e Peréia nos tempos de Jesus.

Em diversas ocasiões os herodianos foram opositores de Jesus (Mt 22:16 Mc 3:6 12:13-17). Nesta ocasião eles unem aos fariseus e saduceus buscando matar Jesus e armando siladas, tentando apanhar Jesus com uma pergunta sobre o pagamento de impostos a César. Alguns autores acreditam que as referências neotestamentárias aos amigos e funcionários do tribunal de Herodes também estão relacionadas aos herodianos (Mc. 6:21, 26; Mt. 14:1-12; 23:7-12).

Os herodianos visavam a fundação de um novo império Judaico independente do governo de Roma e governado pelos Herodes. Esta seita desapareceu com o efetivo domínio romano na região palestina.

O pensamento religioso neopentecostal brasileiro tem uma dose de fermento do zelotismo e do herodianismo. Acreditam que devem tomar posse dos bens materiais para ser usado a serviço da obra do Senhor. E assim fará prosperar os da fé e impor na sociedade um capitalismo cristão. Não aceitam que um “ímpio” seja mais abastado que um cristão.

Como já postei anteriormente este tipo de pensamento no movimento gospel brasileiro teve influência do reconstrucionismo cristão que defende que a igreja deve conquistar o mundo antes do retorno de Cristo, portanto deve controlar as instituições do mundo e convertê-las ao cristianismo.

Este é um comportamento perigoso para os cristãos hodiernos, pois todas as vezes que a igreja se misturou com a política secular, houve degeneração e apostasia da fé.

Próximo ano vai ter eleições no país, o que não faltará é pastores se candidatando a cargos políticos e fazendo analogia do espinheiro para fundamentar suas decisões. Mais será que os crentes conquistando o poder nas instituições ou no congresso nacional haverá convenção ao verdadeiro cristianismo? Como é o histórico dos evangelhos no congresso nacional?

A história dos evangélicos no congresso nacional é feia, sem propósito, se vendem em troca de uma concessão de emissora de rádio ou de doação de terreno para a sua denominação. Há pouco tempo atrás vemos a atuação dos políticos evangélicos escandalizar o país na CPI das Sanguessugas.
A Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional possuia 60 integrantes. Desses 29 foram investigados pela CPMI das Sanguessugas: 14 da Igreja Universal do Reino de Deus; 10 das Assembléias de Deus, 2 da Igreja do Evangelho Quadrangular; 2 da Batista; e 1 da Internacional da Graça.
Em minha opinião particular pastor não era para se candidatar a cargo político! Isso é desvio de função. Deus o chamou para ser pastor (Ef 4.11) e ser político está fora de sua chamada ministerial. Existem cristãos que não teve o chamado de Deus para o pastorado e que pode ser usado no congresso.

Se realmente o pastor foi chamado por Deus deve ficar com sua vocação, mais se for um manipulador de massas que usou o cargo de pastor para atingir seus anseios político e segurança secular esta no caminho certo, pois já é um caído.

Deus realmente ordena aos cristãos tomar o domínio e o poder político das mãos dos ímpios? Após a multiplicação dos pães as multidões queriam fazer de Jesus um rei. Ele podia tomar o poder político e impor um governo cristão.

Jesus antes de sua crucificação afirmou “O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus súditos combateriam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui “( Jo 18:36).

O Reino de Deus não está cosmovisão do fariseu, nem do saduceu, nem do essênio, nem dos herodianos e zelotes. Ele é fundamentado no amor, que é maior que a fé e a esperança. Se você é pastor seja fiel a sua vocação, pois o cargo de pastor e superior ao cargo de político.

Marcos Avelino

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Convivendo com pensamentos diferentes III

Nesta postagem, além de expor um pouco da história dos essênios, é abordada a questão de usos e costumes e do mundanismo. Como conviver com pessoas que têm sua religiosidade baseada nesta bandeira? O texto é longo mais vale a pena ler.

Segundo Flávio Josefo, na época do segundo templo os principais grupo religiosos judeus eram: Saduceus, Fariseus e Essênios. Quando os príncipes macabeus, apossaram-se do ofício de sumo sacerdote, entristeceram os judeus conservadores, e os essênios denunciaram a situação e formaram comunidades ascéticas no deserto. Josefo refere, na ocasião, a existência de cerca de 4000 membros do grupo, espalhados por aldeias e povoações rurais.

Os essênios viviam em comunidade, cumpriam rigorosamente a lei de Moises e estudavam e procuravam viver os ensinamentos dos profetas. Dentre as comunidades, tornou-se conhecida a de Qumran, pelos manuscritos em pergaminhos que levam seu nome, também chamados Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947.

Viviam completamente separados do judaísmo de Jerusalém, o qual considerava apóstata. Consideravam-se a si mesmo “os filhos da luz”, e dividiam-se em grupos de 12 com o líder chamado “mestre da justiça”. Aguardavam o dia da batalha final, quando então haveriam de obter a vitória sobre os “filhos das trevas”.

Como os fariseus, eles guardavam todo um ritual de purificação, tomavam banho antes das refeições e a comida era sujeita a rígidas regras de expurgação. Eram radicalmente dualistas em seus conceitos.

Eles anunciavam "a nova aliança" de Deus com Israel. O cristianismo prega grande parte das praticas judaica essênias referente a ética e a pureza espiritual. Embora sua terminologia seja parecida com a do cristianismo, o conteúdo de seu ensinamento tem diferenças relevantes.

Desapareceram por volta de 73 a.c. quando da conquista da fortaleza de massada pelos romanos. Mas suas práticas e ensinamentos influenciavam sobremodo a sociedade judaica na época de Jesus. E muitos dos conceitos essênios ainda inspiram a sociedade religiosa hodierna.

João Batista tinha muito da influência dos essênios no seu comportamento. Vivia no deserto, não bebia vinho (Lc 7.33)e se referia aos fariseus e saduceus como raça de víbora. (Mt 3.7). E como Jesus reagiu ao modo de pensar essênio se a maior parte dos ensinamentos de Jesus era o mesmo ideal essênio de vida espiritual?

A principal diferença dos ensinamentos de Jesus com a prática dos essênios estava no ponto dos essênios se isolarem dos outros Judeus por se acharem superiores espiritualmente. Por isso Jesus afirmou em Mt. 5.14-16 “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”

Nos dias hodiernos podemos comparar o comportamento essênio com os que tentam servir a Deus em mosteiros, afastado de todos, ou em grupo religioso que se isolam dos outros por pensar que apenas eles são detentores da verdade.

O dualismo essênio, assim como o dualismo grego tem uma contribuição expressiva no comportamento religioso do nosso quotidiano. Na maioria das denominações evangélicas há uma tendência de separar o que é de Deus e o que é do mundo. Falar em mundanismo, crente mundano, e até igreja mundana é discurso comum quando encontra alguém com maneira de pensar diferente. O evangélico que segue a rigor as tradições de sua denominação, seguindo os usos e costumes, pode está vivendo um mundanismo sem dar conta disso! Vejamos o que mundo.

O capítulo da bíblia que mais fala em mundo é João 17, e Jesus faz uma separação de quem é dEle e quem é do mundo. Veja estas passagens “ Eu não estou mais no mundo ; mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda-os no teu nome, o qual me deste, para que eles sejam um, assim como nós. (...) Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim. (...) Pai justo, o mundo não te conheceu; eu, porém, te conheci, e também estes compreenderam que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja. (Jo 17.11,21-23, 24-26)

Jesus está afirmando que ser cristão é ter unidade e amor, e ser do mundo e viver na inimizade, na ira e no ódio. O Apóstolo Paulo ensina: “Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei. Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam.“ (Gl 5.17-21). Viver ao contrário é ser do mundo. É preciso orar e buscar de Deus força para não negar com seu modo de viver aquilo que você prega.

Procurar ser guiado pelo Espírito, e não pela razão, ou pela vontade é a maneira de conviver entre os dualistas, sendo diferente. A bíblia afirma que todos que receberam a Jesus se tornaram filhos de Deus. (Jo 1.12) E o apóstolo Paulo afirma: “mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. (...). O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.” (Rm 8.12,16-17)

Dualismo influenciam sobremodo a linguagem de uso e costumes nas denominações pentecostais e neopentecostais brasileira. O que é de Deus e o que é do mundo. Como se Deus estivesse interessado em apenas alguns apetrechos da religiosidade. Tudo que fazemos é de Deus e pra Deus. Ele não esta alienado de nossa existência. Temos que ser uma unidade sem dualismo. O apóstolo Paulo ensina: “Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam. Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem. Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência; porque do Senhor é a terra e a sua plenitude. Se algum dentre os incrédulos vos convidar, e quiserdes ir, comei de tudo o que for posto diante de vós, sem nada perguntardes por motivo de consciência. Porém, se alguém vos disser: Isto é coisa sacrificada a ídolo, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; consciência, digo, não a tua propriamente, mas a do outro. Pois por que há de ser julgada a minha liberdade pela consciência alheia? Se eu participo com ações de graças, por que hei de ser vituperado por causa daquilo por que dou graças? Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos. (I Co 10.23-33)

Você pode Julgar a você mesmo da seguinte forma: Isto que estou fazendo é para a glória de Deus ou para minha glória, para chamar atenção ou parecer diferente?

Muitos seguem a linguagem dos usos e costumes por pressão institucional. Como a linguagem dos cabelos e do véu tirada da interpretação de I Co 11.2-16. Mas o que este texto quer realmente dizer. Paulo escreve uma longa apologia com respeito ao véu e seu uso na comunidade cristã de Corinto.

O Pastor Raimundo de Oliveira comenta: “Nos dias da Igreja Primitiva, a mulher que não usasse véu nos cultos públicos agia como se tivesse rapado a cabeça. Ora, a cabe­ça rapada era algo repugnante para os judeus, já que só as adúlte­ras tinham a sua cabeça rapada, como castigo do seu crime (Nm 5.18). O mesmo acontecia com as escravas, e, às vezes, com as mulheres em luto, mas isso não era usual para as mulheres que estavam no seu estado normal.”

Também entre as religiões pagãs existiam as prostituta cultuais, que estavam ali para servir aos seus deuses nos templos, e a maioria tinha cabelos aparados. Lendo o texto de I Co 10, descrito acima, podemos entender que o apóstolo Paulo estava proibindo rapar o cabelo para não causar escândalo, pois alguém poderia imaginar que as práticas das prostitutas cultuais também fazia parte do cristianismo. Se tivesse cabelo cortado então usasse o véu.

Na época de Paulo as mulheres deveriam usar o véu, não apenas no culto, mas também, de acordo com o contexto histórico, em público, porquanto nenhuma mulher crente da igreja de corinto pensaria ser apanhada na rua sem véu. A imposição de algumas denominações religiosas hoje é de usar véu apenas no culto, usando parcialmente um texto dentro do contexto histórico, como pretexto para tentar contextualizar um costume.

Resumindo afirmo que para conviver com os que pensam dualistamente sobre o sagrado é preciso uma dose de espiritualidade e amor, não buscando seu próprio interesse, mas do outro, para não ser pedra de tropeço para ninguém como afirma o apóstolo Paulo.

Marcos Avelino

domingo, 4 de setembro de 2011

Convivendo com pensamentos diferentes II

 

Buscando ainda mostrar como Jesus se comportou diante das divergências de opinião com relação à fé, trago mais uma reflexão sobre a maneira de pensar e agir de um grupo religioso nos tempos do novo testamento – os saduceus.

Os saduceus era o segundo grupo religioso mais importante em Israel durante o ministério de Jesus. Formado em sua maioria por sacerdotes e ricos líderes judeus, divergiam do modo de pensar dos fariseus e eram os seus principais adversários. Negavam a existência do mundo espiritual e da ressurreição. “Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa”. At 23.8

O imperialismo grego sobre os judeus influenciou sobremodo a maneira de pensar dos saduceus, que queriam que o judaísmo compartilhasse das vantagens da cultura helenista. Achavam os fariseus radicais e alienados, já que os fariseus lutavam por preservar um judaísmo legítimo. Os saduceus não reconheciam a autoridade da tradição oral, já para os fariseus isso era muito importante.

Interpretavam as escrituras de forma literal e aceitavam como canônico só o pentateuco. Enquanto para os fariseus consideravam toda a escritura do antigo testamento.

Os saduceus tinham menos apoio público que os fariseus, pois a tendência popular e ter regras e rituais para externar a religiosidade. É tentar de alguma maneira materializar algo de divino para fazer parte do culto. Por isso que no encontro de Jesus com a mulher samaritana Ele diz que os verdadeiros adoradores adorarão em espírito e em verdade.

Os fariseus modernos priorizam as tradições na visão de usos e costumes e os saduceus modernos divulgam o liberalismo teológico e negociam as verdades para obter vantagem pessoal. A máfia das ambulâncias é um exemplo vivo de como agem esta classe de religiosos.

Jesus combateu o comportamento religioso dos saduceus, de modo semelhante como ele combateu os fariseus. O orgulho e a falta de amor foi tema do discurso de jesus. Hoje vivemos numa sociedade repleta de neofariseus e neosaduceus. Vejamos como Jesus reagiu a lógica do pensar saduceu.

No livro de Mateus, no capítulo 16, os saduceus juntam-se aos fariseus, mesmo tendo opinião contrária, para tentarem a Jesus. Pediram algum sinal do céu. E Jesus disse que eles não conheciam os sinais dos tempos!

Em Mateus 22.23-38. Eles tentam teologicamente a Jesus. E usaram sua lógica de pensar tentando colocar jesus em situação difícil e provar que a doutrina dos saduceus com relação a ressureição era verdadeira. Jesus os fez calar afirmando que eles não conheciam as escrituras nem o poder de Deus. E afirmou que na ressureição ninguém casa ou dava-se em casamento, e que Deus não é Deus dos mortos e sim dos vivos!

Em Atos 4.1-4 eles mandam prender Pedro e João por pregarem a ressureição dos mortos em Jesus. Em At 5.17,18 eles mandam prender os apóstolos com inveja de ver os sinais de Deus operando através dos apóstolos. Nos dias hodiernos ainda vemos “cristãos” com o mesmo comportamento destes saduceus, condenam ao inferno quem pensar teologicamente diferente da cultura religiosa em que foi criado.

Marcos Avelino